Entre multas e sirenes: o custo de uma “olhadinha” no celular no Maranhão
Entre 2023 e fevereiro de 2026, quase 36 mil motoristas foram autuados no Maranhão por usar celular enquanto dirigiam.
“Quando voltei a atenção para o trânsito, já estava em cima de um buraco. Tentei desviar e depois disso tudo apagou.” A lembrança ainda é viva para o motorista de aplicativo Manoel Dutra, de 34 anos, morador do município de São José de Ribamar, na região metropolitana de São Luís. Bastaram poucos segundos e uma rápida olhada no celular para mudar completamente sua vida. O carro bateu contra um muro. O impacto causou fratura na perna, no braço e na clavícula. Manoel só voltou a abrir os olhos quatro dias depois, já internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
“Acordei quatro dias depois na UTI. Foi ali que percebi como um segundo de distração pode mudar tudo”, afirma.
O relato de Manoel é parte de uma estatística que se repete diariamente nas ruas e estradas brasileiras. Durante o movimento Maio Amarelo, o alerta sobre o uso do celular ao volante ganha ainda mais força. O hábito de checar mensagens, notificações e redes sociais mesmo quando se está ao volante se tornou um comportamento comum no dia a dia, mas que é também perigoso. Hoje, o uso do celular já figura entre as principais causas de acidentes de trânsito no Brasil, ocupando a terceira posição entre os fatores que colocam motoristas, passageiros e pedestres em risco.
No Maranhão, os números reforçam a gravidade do problema. O Departamento Estadual de Trânsito do Maranhão (Detran/MA) registrou 35.925 infrações por uso de celular ao volante entre 2023 e fevereiro de 2026. Somente entre janeiro e fevereiro de 2026, foram contabilizadas 1.961 infrações cometidas por motoristas de carros e outras 197 por motociclistas. A fiscalização também se estende às rodovias federais. A Polícia Rodoviária Federal registrou, nos primeiros meses deste ano, 52 autuações por uso de celular nas rodovias federais que cortam o estado, número superior ao verificado no mesmo período de 2025.
Para o professor da Estácio e psicólogo, Ruy Cruz, a relação cotidiana com o aparelho ajuda a explicar por que é tão difícil resistir àquela rápida olhada na tela.
“O celular se transformou ultrapassou a finalidade de se comunicar por voz. Ao estar em nossas mãos, ele nos conecta às redes sociais e, por consequência, a um mundo que favorece prazeres imediatos e instantâneos. Isso sem contar o medo de estar perdendo algo importante nos minutos que passamos longe do aparelho”, afirma.
Segundo ele, o celular passou a ocupar um espaço emocional e psicológico na rotina das pessoas. “Costumo comparar o celular a uma chupeta eletrônica, pois nos deixa perto de quem está distante e distante de quem está perto. No trânsito, isso se torna ainda mais perigoso, porque perdemos a noção do risco e acreditamos que temos múltiplas capacidades de evitar o pior”, observa.
O psicólogo explica que, com essa combinação, o celular funciona como uma poderosa fonte de estímulos para o cérebro. Cada notificação, curtida ou mensagem recebida provoca uma descarga de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e recompensa. “Na psicologia, isso pode ser entendido como uma falsa necessidade de ter acesso a uma informação ou mensagem interessante de valorização, como um like, uma mensagem afetuosa ou uma notícia relevante”, explica.
Na prática, esse mecanismo faz com que o prazer imediato pareça mais concreto para a mente do que a possibilidade de um acidente. Isso explica porque é difícil resistir ao som de uma notificação recebida, mesmo quando se está dirigindo. “Para o cérebro, o prazer da notificação é mais provável e certo do que algo apenas provável, como um acidente”, destaca.
O professor ressalta ainda que estudos recentes apontam que motoristas profissionais e eventuais podem apresentar o chamado Fear of Missing Out, conhecido pela sigla FOMO. Trata-se de uma sensação de ansiedade causada pelo medo de estar perdendo alguma informação importante. “A ansiedade produz um desconforto físico e dar uma olhadinha gera um alívio imediato. Ao mesmo tempo, ficamos cegos pela desatenção aos riscos”, afirma.
INFRAÇÃO
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, manusear o celular ao volante é uma infração gravíssima. A conduta resulta em multa de R$ 293,47 e aplicação de sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A legislação também não abre exceções para o uso de Bluetooth, fones de ouvido ou qualquer outro recurso que mantenha a atenção dividida durante a condução. Isso porque essas práticas comprometem diretamente o tempo de reação e a percepção de risco dos motoristas.
Para reduzir esse comportamento, o psicólogo defende que o primeiro passo é desenvolver autocontrole e autoconhecimento. Segundo ele, o impulso de verificar o celular pode revelar sinais de sofrimento psíquico que vão além de uma simples curiosidade. “Comportamentos ansiosos ou dependência emocional e cognitiva por estímulos podem se manifestar como déficit de atenção, hiperatividade e auto sabotagem”, pontua.
Na prática, ele recomenda medidas simples, como silenciar notificações antes de dirigir e adotar um “detox digital” durante os deslocamentos. “Toda mensagem enviada ou notícia veiculada pode ser vista depois. O importante é preservar a vida”, reforça.