Calor aumenta risco de pedra nos rins e exige atenção redobrada com a hidratação
Estudos apontam relação entre temperaturas mais altas, baixa umidade e aumento de casos
A partir de agosto, quem mora no Maranhão já sente aquela mudança bem conhecida no clima: as chuvas diminuem, o tempo fica mais seco e as temperaturas, ainda mais elevadas. Se a garrafinha de água já fazia parte do dia a dia, é justamente nesta época do ano que ela deve ocupar um lugar ainda mais importante. A combinação entre calor, perda de líquidos por parte do organismo e pouca hidratação formam a combinação perfeita para o surgimento de um problema extremamente dolorido e potencialmente grave: as pedras nos rins.
Estima-se que a nefrolitíase, como são conhecidas tecnicamente as pedras nos rins, atinjam entre 5% e 15% da população mundial. No Brasil, um estudo publicado no Jornal Brasileiro de Nefrologia encontrou uma associação significativa entre aumento das temperaturas e internações por cálculo renal. Nas cidades brasileiras de clima tropical analisadas pelos pesquisadores, a média de internações mensais por cálculo renal nas cidades de clima quente foi de 82,4,contra apenas 28,2 nas cidades de clima subtropical. Ou seja, quase três vezes mais.
Para o chefe do Serviço de Urologia do Hospital São Domingos, José de Ribamar Calixto, a explicação é simples: no calor, perdemos mais água. E, se não repomos adequadamente esse líquido, os rins têm menos líquido disponível para diluir as substâncias que precisam ser eliminadas pela urina.
“Se você coloca uma água salgada para pegar sol e ela evapora, no fundo do recipiente vai ficar o sal. Com o rim acontece algo semelhante. Se você não toma água suficiente, a urina fica concentrada e as substâncias presentes nela podem favorecer a formação dos núcleos dos cálculos”, explica.
Na urina estão dissolvidas substâncias como cálcio, fosfato, sódio e outros solutos. Quando há pouca água para diluí-los, eles ficam mais concentrados, criando condições favoráveis à cristalização e, em pessoas predispostas, à formação das pedras.
OUTROS FATORES
A hidratação insuficiente é um fator importante, mas não é a única responsável pelo cálculo renal. Segundo Calixto, predisposição hereditária, alterações próprias dos rins, determinados medicamentos e condições metabólicas também podem aumentar o risco. Obesidade, diabetes e sedentarismo também estão entre os fatores que merecem atenção.
“Uma vez formado no rim, o cálculo pode permanecer no local ou se deslocar para o ureter, canal que leva a urina até a bexiga. Quando isso acontece, a pedra pode dificultar ou até bloquear a passagem da urina”, descreve o urologista. É nessa situação que costuma aparecer um dos sintomas mais conhecidos do problema: a cólica renal, uma dor intensa geralmente iniciada na região lombar e que pode irradiar para o abdômen e região genital.
A presença de cálculos também é um fator para o desenvolvimento de infecções renais, conhecidas como pielonefrites. “Uma pedra contaminada, principalmente em um paciente diabético ou que se hidrata pouco, pode estar associada a uma pielonefrite, que é uma infecção do rim. Por isso, quem tem cálculo renal precisa ficar atento à presença de infecção e sangramento”, alerta Dr. Calixto.
Não é necessário esperar a dor aparecer para começar a prestar atenção nos rins. Um sinal bastante simples está disponível toda vez que se vai ao banheiro: a aparência da urina. Quando ela permanece muito amarela, concentrada e com odor forte, pode ser um indício de que a ingestão de líquidos está insuficiente.
“Uma urina clara e bem diluída é um bom sinal. Quando ela está muito concentrada, é um alerta para observar melhor a hidratação”, orienta o urologista.
Nos meses de mais calor, a hidratação adequada continua sendo a principal forma de prevenir os temidos cálculos renais. A orientação do urologista é que, em uma cidade quente como São Luís, o consumo de água chegue a três litros por dia, em média. A dica vale tanto para pessoas que trabalham no calor, e por isso perdem bastante líquido, quanto para quem passa o dia em uma sala com ar-condicionado, que tende a ser um ambiente mais seco. “Na prática, isso significa 4 copos de água pela manhã, de 4 a 6 copos a tarde e 2 a 3 copos à noite”, enumera.
À medida que os dias ficam mais quentes e secos, aumenta também a necessidade de repor a água que o organismo perde. Na prática, a recomendação é simples: não espere sentir muita sede para beber água. Distribua a ingestão ao longo do dia, tenha uma garrafa por perto e observe a urina. “São hábitos pequenos, mas que ajudam o principal filtro do organismo a continuar fazendo bem o seu trabalho”, conclui o especialista.