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Mês das Mães: campanha Maio Furta-Cor acende alerta para saúde mental materna

Médico psiquiatra explica como diferenciar o cansaço esperado da maternidade de sinais de adoecimento emocional.

A maternidade costuma ser associada ao amor incondicional, à realização e à felicidade plena. Mas, longe da idealização, muitas mulheres enfrentam uma rotina marcada por sobrecarga emocional, privação de sono e sofrimento silencioso. Neste mês das mães, a campanha Maio Furta-Cor reforça a importância de olhar para a saúde mental materna com mais acolhimento e informação.

O psiquiatra João Arnaud, professor da Afya Educação Médica São Luís, explica que é natural que as mães enfrentem um período de adaptação intensa nos primeiros meses após o parto. “O cansaço faz parte da maternidade, principalmente nos primeiros meses, quando existe privação de sono, mudanças hormonais e uma adaptação intensa à nova rotina”.

O especialista ressalta, porém, que o alerta surge quando o sofrimento deixa de ser passageiro e passa a comprometer a vida da mulher de forma contínua. “O sinal de alerta aparece quando esse sofrimento deixa de ser passageiro e começa a ser constante, ou seja, quando a mãe sente que não consegue se recuperar nem nos momentos de descanso, perde o prazer pelas coisas, se irrita excessivamente ou passa a viver com sensação de culpa, incapacidade ou exaustão emocional contínua”.

Entre os quadros mais comuns nesse período está o chamado baby blues, caracterizado por tristeza leve e instabilidade emocional nos primeiros dias após o parto. “A mãe pode ficar mais sensível, chorar com facilidade e se sentir emocionalmente instável. Geralmente, isso melhora espontaneamente em até duas semanas”, explica o professor da Afya Educação Médica São Luís. Quando os sintomas persistem ou se intensificam, no entanto, o quadro pode evoluir para depressão pós-parto ou transtornos de ansiedade.

Dados do Ministério da Saúde mostram que a depressão pós-parto afeta entre 10% e 20% das mulheres brasileiras, número que reforça o alerta para a necessidade de acompanhamento emocional durante a maternidade. A depressão costuma provocar tristeza constante, desesperança, culpa excessiva e dificuldade de conexão consigo mesma ou com o bebê. Já a ansiedade se manifesta por meio de preocupação exagerada, medo constante e dificuldade de relaxar. “Também vemos muitos casos de sobrecarga emocional e burnout materno, especialmente em mães sem rede de apoio”, acrescenta o especialista.

Os primeiros meses costumam ser mais desafiadores por causa da privação de sono e da adaptação à nova rotina, mas reforça que mesmo cansada a mãe ainda consegue vivenciar momentos de prazer e recuperação emocional. “Quando o sofrimento permanece intenso por semanas, sem melhora, ou começa a afetar o vínculo com o bebê, a autoestima e a capacidade de lidar com a rotina, isso deixa de ser apenas um cansaço esperado”, alerta o médico.

Entre os principais sinais de adoecimento emocional, o médico cita tristeza constante, choro frequente, irritabilidade excessiva, ansiedade intensa, sensação de incapacidade, culpa exagerada, isolamento, perda de interesse pelas coisas e sensação de viver “no automático”. Alterações no sono e no apetite também merecem atenção. “Dormir pouco faz parte da maternidade inicial. O problema é quando a mãe não consegue descansar nem quando tem oportunidade, vive em estado constante de alerta ou desenvolve uma exaustão persistente”, pontua

A busca por ajuda, ainda conforme o professor da Afya Educação Médica São Luis, não deve ser adiada. “Existe uma tendência de normalizar o sofrimento materno com frases como ‘toda mãe passa por isso’. Mas uma coisa é o cansaço da adaptação; outra é um sofrimento persistente que compromete a saúde mental dessa mulher”.

Tratamento como psicoterapia, fortalecimento da rede de apoio e reorganização da rotina podem fazer diferença no processo de recuperação. “Cuidar da saúde mental materna é cuidar também da saúde emocional da criança e de toda a família”, conclui o dr. João Arnaud.