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Dificuldade de concentração nem sempre é TDAH: especialista explica o que pode estar por trás do sintoma

Ansiedade, estresse, privação de sono e depressão também podem provocar sintomas semelhantes e precisam ser investigados antes de um diagnóstico.

Basta uma rápida passagem pelas redes sociais para encontrar listas de sintomas e relatos sobre Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Dificuldade para se concentrar, esquecer compromissos, perder objetos ou começar várias tarefas sem conseguir concluí-las são situações que podem fazer uma pessoa suspeitar do transtorno. Mas esses sinais, isoladamente, não significam que ela tenha TDAH.

A dificuldade de concentração pode aparecer em diferentes momentos da vida e estar relacionada a fatores como ansiedade, depressão, estresse crônico, privação de sono, burnout, uso de medicamentos ou outras substâncias e até algumas condições clínicas. É o que explica o psiquiatra geral, da infância e da adolescência, João Arnaud Diniz Neto, que também é professor da Afya Educação Médica São Luís.

“Concentração ruim é um sintoma, e não um diagnóstico por si só”, afirma o especialista. Por isso, antes de chegar a uma conclusão, a avaliação médica procura entender o que a pessoa realmente chama de falta de concentração, quando o problema começou, em quais situações acontece e quanto interfere na vida cotidiana.

No caso do TDAH, um dos pontos fundamentais é justamente olhar para a história do paciente, lembra o médico. Por ser um transtorno do neurodesenvolvimento, os sintomas não costumam simplesmente aparecer pela primeira vez na vida adulta. Mesmo quando o diagnóstico só acontece aos 30 ou 40 anos, é comum que uma investigação cuidadosa encontre sinais que já estavam presentes na infância.

“Mesmo quando o diagnóstico só acontece na vida adulta, geralmente conseguimos identificar manifestações desde a infância, ainda que naquela época não tenham recebido o nome de TDAH”, explica João Arnaud.

Isso não significa que toda pessoa com TDAH tenha apresentado dificuldades evidentes durante a infância. Segundo o psiquiatra da Afya Educação Médica São Luís, alguns pacientes conseguem compensar sintomas leves por muitos anos, especialmente quando têm uma rotina estruturada ou poucas demandas. A dificuldade pode se tornar mais perceptível quando aumentam as responsabilidades.

“Algumas pessoas tinham sintomas leves desde a infância, mas conseguiam compensá-los porque tinham uma rotina muito estruturada ou porque as exigências eram menores. Quando entram na universidade, assumem um cargo mais complexo, têm filhos ou passam a administrar muitas responsabilidades simultaneamente, essas estratégias deixam de ser suficientes”, diz.

Por outro lado, uma mudança recente no padrão de concentração também merece atenção. Se uma pessoa manteve o mesmo padrão de atenção ao longo dos anos e passa a apresentar dificuldades, é importante investigar o que mudou. Alterações no sono, sobrecarga profissional ou acadêmica, ansiedade, depressão, burnout, medicamentos e outras condições podem estar por trás da queixa.

A ansiedade, por exemplo, pode comprometer a atenção sem que exista TDAH. “A pessoa pode estar tão ocupada com preocupações e pensamentos antecipatórios que sobra pouca capacidade atencional para aquilo que está fazendo”, explica o médico. Na depressão, também podem aparecer lentificação, perda de motivação e dificuldades de memória e concentração.

A avaliação também deve considerar se os sintomas aparecem em diferentes ambientes e se provocam prejuízo real. Ter dificuldade para se concentrar durante uma fase específica de grande estresse, por exemplo, não é suficiente para caracterizar TDAH. Escalas e avaliações neuropsicológicas podem ajudar em determinados casos, mas nenhum teste isolado estabelece o diagnóstico.

Com a grande quantidade de conteúdo sobre TDAH disponível na internet, o especialista alerta ainda para o risco de transformar identificação com alguns sintomas em autodiagnóstico ou automedicação. “O objetivo da avaliação médica não é apenas descobrir se existe TDAH, mas entender por que aquela pessoa está tendo dificuldade para se concentrar. Essa diferença é fundamental para escolher o tratamento correto”, afirma.

A procura por avaliação profissional é especialmente importante quando a dificuldade é persistente e começa a provocar prejuízos concretos, como erros frequentes, perda de prazos, queda no desempenho profissional ou acadêmico, esquecimento recorrente de compromissos ou problemas na organização da rotina. Mudanças recentes acompanhadas de alterações importantes do sono, ansiedade intensa, sintomas depressivos, problemas de memória ou outros sintomas também merecem investigação.