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MA registra mais de 3,7 mil ocorrências envolvendo animais silvestres


Só no início deste ano, foram 183 capturas/resgates, com predominância de cobras

O autônomo Anderson Gomes, de 45 anos, morador de Imperatriz, já manteve em casa duas cobras consideradas exóticas: uma píton-bola e uma corn snake, também conhecida como cobra-do-milho. Os animais, no entanto, foram apreendidos após fiscalização.

“Eu consegui por meio de um contato pela internet. A pessoa fazia entrega e dizia que era tudo legalizado, mas depois descobri que não era bem assim”, relata Anderson. O caso dele não é isolado e ajuda a ilustrar uma prática ainda comum no país: a criação de animais silvestres como se fossem domésticos, uma atitude que pode trazer riscos à saúde, ao meio ambiente e também resultar em penalidades legais.

Riscos vão além da ilegalidade

Segundo a professora do curso de veterinária da Unifacimp, Luiza de Marilak, manter animais silvestres em ambiente doméstico é uma prática inadequada sob vários aspectos.

“A manutenção de animais silvestres fora de seu habitat natural, especialmente em ambiente doméstico, é uma prática de risco elevado sob os pontos de vista sanitário, comportamental, ético e legal”, afirma.

Um dos principais impactos está no comportamento dos animais. Fora do habitat natural, eles tendem a desenvolver sinais de estresse. “Nessas situações, esses animais apresentam alterações comportamentais, frequentemente associadas ao estresse crônico, manifestando-se por agressividade, apatia ou comportamentos repetitivos”, explica a professora.

A alimentação também é um problema. “Dietas domésticas raramente atendem às exigências específicas, o que pode causar deficiências nutricionais, distúrbios metabólicos e até quadros graves”, destaca. Além disso, a falta de acompanhamento especializado compromete o cuidado adequado. “A ausência de assistência veterinária adequada dificulta o diagnóstico precoce e o manejo correto de doenças”, completa.

Outro ponto de atenção é a saúde pública. Animais silvestres podem transmitir doenças aos humanos, conhecidas como zoonoses. “Existe um risco relevante de transmissão de zoonoses, tanto de animal para humano quanto de humano para animal”, alerta Luiza de Marilak. Entre as doenças estão raiva, leptospirose, toxoplasmose, leishmaniose, além de infecções por fungos e parasitas.

Maranhão registra milhares de ocorrências

No Maranhão, os números mostram a dimensão do problema. Em 2025, foram registrados 3.773 acionamentos para captura de animais, sendo 2.326 apenas em São Luís. As cobras lideram as ocorrências, com 2.769 registros, seguidas por jacarés (245) e iguanas (113), além de outras espécies como corujas, camaleões, mucuras e tamanduás. Já no início de 2026, entre janeiro e março, o Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão registrou 183 capturas/resgates, com predominância de cobras.

Após o resgate, os animais são encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres, onde passam por avaliação e reabilitação. Já neste mês de abril, ainda na primeira quinzena, a PRF resgatou cinco aves silvestres mantidas ilegalmente em cativeiro durante ações de fiscalização realizadas na tarde do dia 16 de abril de 2026, ao longo da BR-010, nos municípios de Açailândia e Cidelândia, no sudoeste do Maranhão.

Crime ambiental

A criação desses animais sem autorização não é apenas um risco: é crime. A prática está prevista na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), que proíbe capturar, manter em cativeiro, transportar ou comercializar animais silvestres sem autorização dos órgãos competentes.

De acordo com a legislação, a pena pode incluir detenção, multa e outras sanções administrativas, além da apreensão dos animais.“Se o animal não for adquirido em criadouros legalizados, trata-se de criação ilegal, diretamente associada ao tráfico de animais silvestres”, ressalta a especialista.

Orientação e prevenção
Além das ações de resgate, o Batalhão de Bombeiros Ambiental atua na orientação da população, com ações educativas e monitoramento de áreas com maior incidência. A recomendação é clara: ao encontrar um animal silvestre, a população deve evitar qualquer contato e acionar os órgãos competentes.

Casos de criação ilegal ou tráfico de animais podem ser denunciados por diferentes canais oficiais, como o IBAMA, por meio da Linha Verde (0800 061 8080), pela plataforma Fala.BR, pelo Disque-Denúncia Maranhão, nos números (98) 3223-5800 ou 0300 3135 800, além da Polícia Militar Ambiental, que pode ser acionada pelo telefone 190.
“Quanto mais detalhadas forem as informações, maior a chance de uma resposta rápida e eficaz”, orienta a professora.